{"id":143,"date":"2025-09-13T19:05:10","date_gmt":"2025-09-13T19:05:10","guid":{"rendered":"https:\/\/ricardopaes.com.br\/blog\/?p=143"},"modified":"2025-10-27T10:33:00","modified_gmt":"2025-10-27T10:33:00","slug":"11-kamala-e-o-buda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ricardopaes.com.br\/blog\/2025\/09\/13\/11-kamala-e-o-buda\/","title":{"rendered":"11. Kamala e o Buda"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><em>\u00a1Despierta. paloma!<br>El alba despeja<br>campanas de sombra. (\u2026)<br>Y esto es un cuchillo,(\u2026)<br>Y apenas cabe en la mano.<br>pero que penetra fr\u00edo<br>por las carnes asombradas<br>y all\u00ed se para, en el sitio<br>donde tiembla enmara\u00f1ada<br>la oscura ra\u00edz del grito.<\/em><br>(<em>Bodas de Sangre<\/em>. Garcia Lorca, 1933)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No lusco fusco do amanhecer \u00e9 que despertam os grandes amores. Como a noite que adormece, r\u00f3sea, nos bra\u00e7os do dia que desperta; H\u00f3rus hirto que ressurge da batalha contra um Seth que desfalece exausto de estrelas; como o sangue e o leite do leiteiro que Drummond imortaliza em seu poema sobre o an\u00f4nimo<br>mensageiro; assim tamb\u00e9m despertam ou adormecem para sempre o casal cuja forma, desfeita com os primeiros raios da manh\u00e3 e, embora tenha acordado aos prantos silente, emerso de um pesadelo de tirar o f\u00f4lego, resolvi cham\u00e1-lo a cortes\u00e3 Kamala e o Buda na senda de seu aprendizado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O corpo de desejos, materializado pela paix\u00e3o das formas, crepita sem luz ou chamas, como arde a m\u00famia silenciosamente desfazendo-se na lenta consuma\u00e7\u00e3o de cinco mil anos; se n\u00e3o lhe roem as tra\u00e7as, pois o salitre que a embalsama \u00e9 onipresente e a vida n\u00e3o resiste a tanto sal, um fogo f\u00e1tuo ilumina-lhe uma \u00faltima vez a forma humana, num lampejo nesta hora rosa da quase manh\u00e3. Os amantes tentam enla\u00e7ar-se no p\u00f3 em que se tornaram os abra\u00e7os. Por um \u00e1timo \u00e9 pela impossibilidade do abra\u00e7o, do beijo, do enlace carnal que s\u00e3o vertidas as l\u00e1grimas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os corpos de ambos divisavam-se um ao outro nos corredores escuros da tumba. Podia ser um apartamento, a treva furtiva de amores roubados num Taj-Mahal imagin\u00e1rio, um antro de seres das trevas, apenas a penumbra ou a onipresente luz vermelha de um &#8220;bas-fond&#8221; de profissionais do sexo; mas no sonho, assemelharam-se \u00e0 mat\u00e9ria informe das mem\u00f3rias reconstru\u00eddas pelo recalque. Havia desejo e m\u00fatua admira\u00e7\u00e3o, resistia uma paix\u00e3o de outrora arrestada no eco oco do fogo domesticado pelo que \u00e9 maduro: ela, que fora linda nos vestidos que moldaram suas formas atraentes, emolduraram em seda e fios dourados a gra\u00e7a do corpo jovem e ardente; ele, jovem em busca de sua alma, alma em busca do que \u00e9 eterno e imut\u00e1vel por tr\u00e1s das formas que adoecem e morrem, do que \u00e9 belo mas fenece, que tentara a mortifica\u00e7\u00e3o depois de toda uma vida de luxos e prazeres sem dor. Ela, cortes\u00e3; ele, cortejo &#8211; um caminhar pelo mundo em busca do fim, do sentido, da consuma\u00e7\u00e3o de quem sabe que ao t\u00e9rmino da estrada s\u00f3 h\u00e1 o p\u00f3. Ela, art\u00edfice nas artes do gozo do corpo; ele, aprendiz e mestre a esculpir o templo da ilumina\u00e7\u00e3o da<br>alma. Ambos igualmente p\u00f3.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os corpos de ambos se entreolharam na escurid\u00e3o: ainda ardia alhures o desejo transformado. Um \u00faltimo arrepio percorreu-lhes as enerva\u00e7\u00f5es que j\u00e1 n\u00e3o haviam e, ao leve toque que trocaram, as formas arderam como o vento sudoeste desfaz no amanhecer as dunas erguidas com as brisas da noite e vergadas pelo sereno. Seus rostos irreconhec\u00edveis; imposs\u00edvel distinguir qual sentimento havia no abra\u00e7o de duna que trocavam no desfazimento. Cada gr\u00e3o do que fora seus corpos dan\u00e7ava no v\u00f3rtice que o vento da manh\u00e3 coreografava.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No sonho, pareciam dois danados. As l\u00e1grimas corriam de seus olhos, no momento de acordar &#8211; naquele momento onde um p\u00e9 ainda sente v\u00edvidos a areia e o mar do inconsciente fantasmatizado, enquanto o outro est\u00e1 na cama, sente o peso da carne, a dorm\u00eancia da m\u00e1 circula\u00e7\u00e3o dos fluidos, e espregui\u00e7a um a um os dedos como quem se prepara para o recaminho. Nesta cena monumental &#8211; como aquela em Dersu Uzala, onde pode-se ver em cinemascope a noite adornada de um lado com a lua p\u00e9rola marm\u00f3rea e de outro o dia coroado com o sol j\u00f3ia dourada &#8211; Kamala e Buda se entreolham sem olhos (em Gaza, com Sans\u00e3o, citando a ep\u00edgrafe de Huxley) neste \u00ednfimo instante de permiss\u00e3o, como Isabeau e Navarre, v\u00edtimas do feiti\u00e7o do Bispo de \u00c1quila, condenados a apenas um breve instante no amanhecer &#8211; ele amaldi\u00e7oado a ser lobo durante a noite e ela, de dia, condenada a ser falc\u00e3o. O rato, mensageiro qual o leiteiro, faz de crep\u00fasculo e proxeneta: engendra o encontro. O rato \u00e9 aquilo a clivar o plano das puls\u00f5es, eructa\u00e7\u00e3o imag\u00e9tica do sonho, com o plano do recalque, continente. Mas as l\u00e1grimas n\u00e3o s\u00e3o de dor, pelo apego a um amor da carne, lascivo e servil \u00e0s paix\u00f5es primitivas. Ao contr\u00e1rio, s\u00e3o uma doce despedida. A \u00e1gua doce exsudada da m\u00famia, embalsamada no \u00eaxtase saudoso da fruta que serviu ao milagre da semente: a \u00e1rvore Bodhi, germem-olho que nunca se fecha, Eu Superior desperto afinal no Eterno, corpo desfeito que sorri. Buda e Kamala sorriem um para o outro mais uma vez.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cena \u00e9 doce, embora sejam as l\u00e1grimas, de sal, como as l\u00e1grimas de Portugal. A saudade eterna \u00e9 sempre promessa nas coroas f\u00fanebres, como o \u00e9 de pureza e amor eternos a coroa branca das noivas matutinas. A pomba loura e o urubu feio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os p\u00e9s de um casal se tocaram \u00e0 noite sob as cobertas, um membro hirto e um ninho \u00famido de carne exsudaram seus ferom\u00f4nios na falta de encontro que sentiam; os sonhos para sempre separados se abra\u00e7aram uma vez mais num lampejo org\u00e1stico para al\u00e9m da atra\u00e7\u00e3o dos corpos; n\u00e3o h\u00e1 fidelidade neste amor sem anatomia, onde todos desejos de objeto arquet\u00edpicos exumados se eximem de toda e qualquer parte. Anseiam por Todo. N\u00e3o importa se o Sutra ao deus Kama \u00e9 medita\u00e7\u00e3o pura, se o Tantra desperta desde o muladhara qual naja encantada pela flauta e que se ergue kundalini rumo ao chackra de mil p\u00e9talas. Importa que o casal solar-lunar dance com os p\u00e9s descal\u00e7os da alma, a zoroastriana coreografia &#8211; antes p\u00e9talas perfumadas nos \u00f3leos dos abra\u00e7os no ninho de amor e que ora jaz revoluta na espiral scendente de folhas secas de Polyscias guilfoylei que ardem na fogueira e cujas centelhas quase cinzas ascendem buscando seu devir de estrelas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ricardo Paes<br>20 de maio de 2014<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a1Despierta. paloma!El alba despejacampanas de sombra. (\u2026)Y esto es un cuchillo,(\u2026)Y apenas cabe en la mano.pero que penetra fr\u00edopor las carnes asombradasy all\u00ed se para, en el sitiodonde tiembla enmara\u00f1adala oscura ra\u00edz del grito.(Bodas de Sangre. Garcia Lorca, 1933) No lusco fusco do amanhecer \u00e9 que despertam os grandes amores. 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