{"id":188,"date":"2026-08-09T09:48:00","date_gmt":"2026-08-09T09:48:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ricardopaes.com.br\/blog\/?p=188"},"modified":"2026-01-11T03:31:08","modified_gmt":"2026-01-11T03:31:08","slug":"23-schutze-und-ziel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ricardopaes.com.br\/blog\/2026\/08\/09\/23-schutze-und-ziel\/","title":{"rendered":"58. Sch\u00fctze und Ziel"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\">\u201cO que leva algu\u00e9m a ficar lendo e escrevendo o tempo todo, e n\u00e3o ir l\u00e1 pra fora brincar, curtir com os amigos e tal, heim?\u201d, perguntou o irm\u00e3o Sch\u00fctze. A pergunta do irm\u00e3o era provocativa, afinal sabia que o irm\u00e3o Ziel tinha certa fobia social, se sentia um desajustado, um estrangeiro em sua pr\u00f3pria casa e o mundo l\u00e1 fora era hostil e n\u00e3o o convidava ao jogo e ao prazer.<br><br>\u201cA aprender, viajar sem sair de casa\u2026\u201d, respondeu, um pouco sem convic\u00e7\u00e3o e com medo do que o irm\u00e3o lhe jogasse na cara em resposta. \u201cTu n\u00e3o acha que viajar sem sair de casa \u00e9 coisa de perdedores? De gente que se esconde pra n\u00e3o enfrentar a vida?\u201d.<br><br>Discuss\u00f5es como essa eram recorrentes. Embora o irm\u00e3o sete mil anos mais velho, aqui e ali, sobretudo quando apresentava o ca\u00e7ula da casa a visitas curiosas, sempre a ele se referisse com um simulacro de orgulho, dissimulando o fato de que aquela mania do irm\u00e3o de ler e escrever fosse um problema, mas que era melhor apresentar como algo de que a fam\u00edlia n\u00e3o devesse se envergonhar.<br>As respostas do jovem Ziel, sete mil anos mais novo, ficaram guardadas, sem que este as ousasse proferir, caladas como a baioneta que tirara a vida do av\u00f4 na Segunda Grande Guerra e depois, reencarnado, tamb\u00e9m na Oitava e na D\u00e9cima Quinta. Enquanto ruminava as palavras n\u00e3o ditas, abaixava a cabe\u00e7a e devolvia o olhar agressivo do mais velho com a desola\u00e7\u00e3o de n\u00e3o estar sendo compreendido. Mesmo assim, e talvez por algum arrependimento, o mais velho, tomou o caderno cheio de garatujas do irm\u00e3o e olhou por um segundo, devolvendo-o com certa rudeza:<br><br>\u201cMas vai l\u00e1, conta a\u00ed o que tu escreveu. Vou deitar e fechar os olhos, mas estou te ouvindo\u201d. Essa frase era a deixa, a pista como nas vezes anteriores. Ele sabia que o irm\u00e3o iria dormir em poucos minutos, que para n\u00f3s eram semanas. Agora ele come\u00e7aria a ler seus poemas e contos, seus textos estranhos, muitos sem p\u00e9 nem cabe\u00e7a, e dali a dois ou tr\u00eas minutos, ou semanas, ouviria o irm\u00e3o ressonando, a boca levemente entreaberta para indicar que mergulhava em sono profundo. Mais um tempo ele veria os olhos moverem-se rapidamente nas \u00f3rbitas, indicando que o irm\u00e3o sonhava. Sua fase REM durava um ano inteiro. Mesmo assim seguiria sem interrup\u00e7\u00e3o sua leitura. A leitura dos textos que ningu\u00e9m prestava aten\u00e7\u00e3o realmente. O que ele precisava era de uma escuta, ainda que inconsciente.<br><br>Firmou os olhos no papel e leu o primeiro trecho: \u201cSou um rato branco desajustado. N\u00e3o fa\u00e7o exerc\u00edcios na rodinha como os demais e minha dieta n\u00e3o se baseia no mix balanceado de ra\u00e7\u00f5es que nos oferecem. Perdi h\u00e1 tempos os dentes roedores e, deixando de ser incisivo neste mundo de ratos brancos supremacistas, vejo-me como sem fun\u00e7\u00e3o ou utilidade. E se quer saber como perdi meus incisivos, acho que foi tentando roer as finas grades da gaiola. Consegui retirar boa parte da tinta que as revestia, mas somente daquelas que alcancei em minha enorme limita\u00e7\u00e3o de pequen\u00edssimo roedor. Tinha esperan\u00e7a de que algumas delas fossem feitas de um metal menos resistente, mas todas eram de um a\u00e7o de primeira e meus dentes se consumiram e disso quase n\u00e3o dei conta; quando reparei, era tarde demais. Quando vi, havia contaminado as ra\u00edzes de ambas as presas maiores e centrais &#8211; os molares laterais foram enfraquecendo e agora mal consigo mastigar as ra\u00e7\u00f5es mais macias. Toda a boca doi, inflamada. Nos comunicamos por ultrassons, de modo que quando expressamos dores lancinantes os humanos n\u00e3o nos ouvem. De modo que os cuidadores n\u00e3o percebem minha real condi\u00e7\u00e3o.<br><br>Na gaiola colocaram uma f\u00eamea para procria\u00e7\u00e3o, mas na realidade n\u00e3o consegui emprenhar a pobrezinha. Talvez, por defici\u00eancia de nutrientes, minha produ\u00e7\u00e3o de esperma seja baixa, sei l\u00e1 eu. Sou um rato. Um rato branco de laborat\u00f3rio. Talvez at\u00e9 seja um refugiado. Mas esse \u00e9 meu nome comum. O cient\u00edfico \u00e9 Rattus Norvegicus  Sou do filo <em>Chordata<\/em>, Subfilo <em>Vertebrata<\/em>, da Classe <em>Mammalia<\/em>, Ordem <em>Rodentia<\/em>. Sou da Fam\u00edlia dos <em>Muridae<\/em>, subfam\u00edlia <em>Murinae<\/em>, G\u00eanero <em>Rattus<\/em>, da esp\u00e9cie <em>Norvegicus<\/em>. Por isso <em>Rattus Norvegicus.<\/em> Mas pode me chamar s\u00f3 de Rato. E ainda por cima albino e desajustado.\u201d<br><br>E esse era o momento em que ele perguntaria ao irm\u00e3o \u201cE a\u00ed? O que achou?\u201d. Mas Sch\u00fctze dormira ainda nas primeiras linhas. E ele sabia disso. Sabia tamb\u00e9m o que o irm\u00e3o acharia daquela bobagem, ele com aquela mania de estudar os bichos, de devorar livros e livros sobre a anatomia de insetos e animais de todos os portes. Ziel era um ser estranho, t\u00e3o desajustado e medroso como o rato &#8211; e, claro, usava a literatura para costurar aquilo tudo, como seu pai alfaiate o faria, embora tamb\u00e9m n\u00e3o apreciasse nem a literatura nem as manias do ca\u00e7ula.<br>Fechou o caderno, imaginou um di\u00e1logo com o irm\u00e3o e apenas respondeu, como se o irm\u00e3o o tivesse elogiado: \u201cQue bom que voc\u00ea gostou\u201d. Colocou o caderno sob a cama de baixo da bicama \u201cmarquesa\u201d onde dormiam, afastou para longe do nariz as botinas f\u00e9tidas do irm\u00e3o que acabara de chegar do est\u00e1gio no estaleiro, apagou a luz e tentou dormir. Era dif\u00edcil, com tantos sons no vai e vem das pessoas subindo e descendo da favela. Costumava pensar que nunca vira a favela realmente silenciosa, pois sempre havia um trabalhador chegando de longe no in\u00edcio da madrugada e sempre algu\u00e9m acordava mais cedo para ir trabalhar, de modo que n\u00e3o havia uma hora do dia em que a rua silenciasse. E, claro, ele com seus ouvidos sens\u00edveis de rato, divagava a cada som, imaginava situa\u00e7\u00f5es e cenas, pensava nas hist\u00f3rias daquele povo que ia e vinha o tempo todo, contrastando com a necessidade de sono das casas, onde havia gente que estudava e trabalhava em algum lugar perto ou longe dali. Essa era uma das coisas que distinguiam as pessoas do morro e as do asfalto<br>.\u2026<br>O rato Ziel um dia raspou a cabe\u00e7a, de tanto que assistiu ao seriado Kung Fu e resolveu chamar o amigo, uma criatura que durante o primeiro mil\u00eanio de amizade parecia um seu igual, morador na gaiola vizinha (na verdade no pr\u00e9dio g\u00eameo ao seu) com aquele assobio ultrass\u00f4nico combinado desde a inf\u00e2ncia. Quando este o ouviu e o avistou por tr\u00e1s das suas pr\u00f3prias grades, gargalhou em sil\u00eancio com os olhos arregalados como quem diz \u201cMaluco, cara, por que voc\u00ea fez isso?\u201d. Rapidamente ele subiu at\u00e9 a casa do amigo &#8211; naquele tempo n\u00e3o haviam trancas eletr\u00f4nicas, os muros eram baixos, embora a favela fosse palco de confrontos frequentes entre traficantes e a pol\u00edcia, a viol\u00eancia ou assaltos contra os moradores das cercanias era reduzida quase a zero, pois ningu\u00e9m queria problemas com os \u201cdo asfalto\u201d mais pr\u00f3ximos do morro. Os dois riram e conversaram bastante, o careca convencendo o cabeludo a tornar-se um rato shaolin como ele. O cabeludo ora topava, ora amarelava. Ziel chegara a enrolar o amigo num len\u00e7ol como nas barbearias, a tesoura no alto da cabe\u00e7a, esperando pelo OK final. Depois de muitos \u201cVai!\u201d e \u201cN\u00e3o vai!\u201d, o careca acabou por abrir uma clareira na vasta cabeleira do amigo e, dali at\u00e9 a raspagem total, foi um pulo. A m\u00e3e do rato rec\u00e9m cooptado ao templo Shaolin da Marechal (como apelidaram a rua) gritou da gaiola vizinha, para que viesse almo\u00e7ar:<br>\u201cDonner!\u201d, disse Dona Kleine Therese com seu tom peculiarmente doce. Ele apareceu na janela, j\u00e1 careca, e a m\u00e3e arregalou os olhos gritando para o marido: \u201cSergei, vem ver uma coisa!\u201d. O pai apareceu por tr\u00e1s das grades e resmungou: \u201cIsso \u00e9 coisa daquele maluco do Ziel\u2026 parece que tem titica na cabe\u00e7a! \u00c9 um <em>kopfk\u00f6t <\/em>esse piroca!\u201d.<br>Passaram-se os mil\u00eanios, os dois amigos RATOS cresceram, bem como seus cabelos, os pais faleceram &#8211; as m\u00e3es seguem, velhinhas, caminhando mais lentas pelo bairro &#8211; e ainda se encontram na Marechal ou na Bar\u00e3o, os filhos cinquent\u00f5es, e lembram dessas e de outras hist\u00f3rias. O tempo tamb\u00e9m passa para os ratos. Em alem\u00e3o \u00e9 maus. Mas n\u00e3o confunda. Ziel, segue escrevendo, sonhando ler suas hist\u00f3rias para o amigo Donner. Sch\u00fctze afastou-se de todos. Os tr\u00eas j\u00e1 atravessaram a metade da era, sendo que apenas Donner segue agitado, ligeiro, falando depressa e sempre sem tempo para conversar. Ziel lamenta que em torno de si n\u00e3o existam c\u00edrculos conc\u00eantricos e centr\u00edpetos de amizade na propor\u00e7\u00e3o de seu desejo.<br><br>Paco Rakonti<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO que leva algu\u00e9m a ficar lendo e escrevendo o tempo todo, e n\u00e3o ir l\u00e1 pra fora brincar, curtir com os amigos e tal, heim?\u201d, perguntou o irm\u00e3o Sch\u00fctze. 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