01. Vulcão

I

Não pode um vulcão
a lava conter
eternamente,

mesmo porque
o ser do vulcão
consiste em negar a contenção:

deixar a lava lavar
– como lava a lágrima o olho –
o coração.

Não se pode escorrer
como escorre a lava
eternamente,

pois o ser da lava
consiste em tecer
o fio de pedra

quando desaquece:
quando tudo esquece
(aparenta esquecer)

o fundo da lava
o poeta escava.

II

Não se pode escrever
como escrever a rocha
com seu giz de lava

sobre a pele úmida
do ventre morno
da terra

Não se pode ler
nem sequer se ver
em letras de ar

em curvas de vento
nas dobras
do céu

É do ser da escrita
de ser como a rocha
como é o ser da lava;

tão logo se inscreve
de si torna escrava.

Ricardo Paes
15/7/1983


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