I
Não pode um vulcão
a lava conter
eternamente,
mesmo porque
o ser do vulcão
consiste em negar a contenção:
deixar a lava lavar
– como lava a lágrima o olho –
o coração.
Não se pode escorrer
como escorre a lava
eternamente,
pois o ser da lava
consiste em tecer
o fio de pedra
quando desaquece:
quando tudo esquece
(aparenta esquecer)
o fundo da lava
o poeta escava.
II
Não se pode escrever
como escrever a rocha
com seu giz de lava
sobre a pele úmida
do ventre morno
da terra
Não se pode ler
nem sequer se ver
em letras de ar
em curvas de vento
nas dobras
do céu
É do ser da escrita
de ser como a rocha
como é o ser da lava;
tão logo se inscreve
de si torna escrava.
Ricardo Paes
15/7/1983
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