Tentei abrir os pulsos,
mas os pulsos não abriram;
tentei tomar cicuta,
mas cicuta não havia;
atirar-me da janela,
eu tentei, mas a rede
de proteção do gato
segurou-me o corpo exangue
e, de fato, de tudo que tentei
me restou a poesia
nua, que rasguei.
Tentei vasculhar a memória
recapitular a história
entender o rompimento
e o infeliz argumento;
que fora dado ao telefone
depois fiquei noites insone
e não vinha entendimento.
Desfeito no virtual,
sem abraço, sem o olhar
cúmplice, outrora,
aquele amor tão bonito
me deixava aflito
chorando até a aurora.
Um punhal enfiado no peito
com palavras ditas docemente
ao telefone, com jeito,
me sangrou profundamente
e ainda está lá, como um presente
antecipado de aniversário.
Grato pelo presente
assim sem dedicatória
conversando com um sobrinho,
é que entendi essa história…
mas agora, já sem glória,
tomo outra taça de vinho.
Ricardo Paes
2001-07-16
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