Sei que muitos vão censurar minha atitude. Uns falam que ficamos no limbo, entre os mortos e os vivos. De maneira geral, são pouquíssimas as culturas que aceitam o suicídio. Mas imagino que vocês queiram saber quais foram os meus motivos, acertei? É tão simples: quantos de vocês, que ainda estão vivos – ou pensando estar vivos – desistem ante a primeira dificuldade ou desistem antes mesmo de começar? Quantos acreditam não serem capazes de viver sem Fulano ou Sicrana, sem aquele emprego, sem grana, sem um membro do corpo, ou sem movimentos, sem um dos sentidos. Eu me matei no auge da minha carreira, gozando reconhecimento profissional, amando muito e sendo amado, com filhos lindos, sem problemas financeiros ou de saúde. Enfim, vocês irão dizer que não tive qualquer dos motivos clássicos: não usava drogas, não foi por impulso ou qualquer tipo de desequilíbrio. Não foi por falta de Deus, não foi por não ver sentido na vida ou no amor. Não estava obsedado por más influências ou qualquer tipo de “encosto”. Nada disso. Exerci minha liberdade plena, com este ato extremo. O que para a maioria de vocês parecerá uma fraqueza, para mim foi a expressão da minha potência. Eu sei que mesmo assim, muitos de vocês
irão me censurar, vão me achar louco ou ficarão inconsolados, abismados com meu gesto, assim, tão distante de qualquer desespero ou desalento. Nunca me senti tão bem em minha vida ou morte. Os livros espíritas estavam todos errados, sabiam? Não existem escolas nem hospitais por aqui, e não somos recebidos por ninguém, anjo ou demônio – aliás, inferno e céu é outra balela, sabiam? Os entes queridos que se foram não nos aguardam ao final de um túnel de luz. Isso é bobagem que inventam para que possamos suportar a ideia da morte, sem na realidade conhecê-la para saber se será assim tão insuportável. Nada mais falso. Quantos livros sagrados foram escritos e não chegaram nem perto do que a gente experimenta por aqui. E é tão simples, meus caros, tão óbvio, que ninguém poderia imaginar. Toda psicografia, afinal, é sempre auto psicografia; a alma e todas elas juntas, cabem num espaço ínfimo, o mais minúsculo dos pontos e tudo resta ali para sempre – e em volta, apenas um branco, um imenso branco como o branco de uma folha de papel, imensa e branca, onde jamais se escreverá coisa alguma, onde restará apenas este minúsculo e imenso ponto… final
Ricardo Paes
(exercício de freewriting durante 8 minutos sem correções e com música de
fundo em 2002)

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