12. Efêmera dança


que ostra feliz não faz pérola
eu já sabia; que mora na filosofia

rimar amor e dor, Caetano já dizia;
que a melhor canção se nutre

da dor de cotovelo ou da indignação
essa crença eu já nutria, mas agora

quando se perde um grande amor
o maior de todos, o mais intenso,

o que resta ao filósofo e ao poeta
além de um desvelo imenso?

penso que resta atravessada a seta
ou flecha, como queira, do Cupido

ensanguentada no peito como se
fosse à respeito de amor correspondido:

memória do que perdeu, sem nunca
ter conquistado, que amor é dar

o que não se tem, a alguém que não
o quer; assim dizia Lacan, para o homem

e a mulher; de modo que esse vão ato
infinito desarranjo, é como enfiar a seta

na fenda funda e metafísica, chamada
também, às vezes, de ferida narcísica

do anjo com arco em riste, distraído
mira, acerta e insiste em desferir

essa triste condição a quem pensa
que amar é escapar da recompensa

seja amado, seja amada, de ao fim
e ao cabo, crer que o gozo alcança

mas que não passa de graça efêmera
coreografada em efêmera dança.

29 de junho de 2025


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