que ostra feliz não faz pérola
eu já sabia; que mora na filosofia
rimar amor e dor, Caetano já dizia;
que a melhor canção se nutre
da dor de cotovelo ou da indignação
essa crença eu já nutria, mas agora
quando se perde um grande amor
o maior de todos, o mais intenso,
o que resta ao filósofo e ao poeta
além de um desvelo imenso?
penso que resta atravessada a seta
ou flecha, como queira, do Cupido
ensanguentada no peito como se
fosse à respeito de amor correspondido:
memória do que perdeu, sem nunca
ter conquistado, que amor é dar
o que não se tem, a alguém que não
o quer; assim dizia Lacan, para o homem
e a mulher; de modo que esse vão ato
infinito desarranjo, é como enfiar a seta
na fenda funda e metafísica, chamada
também, às vezes, de ferida narcísica
do anjo com arco em riste, distraído
mira, acerta e insiste em desferir
essa triste condição a quem pensa
que amar é escapar da recompensa
seja amado, seja amada, de ao fim
e ao cabo, crer que o gozo alcança
mas que não passa de graça efêmera
coreografada em efêmera dança.
29 de junho de 2025
Leave a Reply