“Acorda, Adamastor! Você estava tendo um pesadelo!”
Adamastor suava frio, o corpo tremia dos pés à cabeça, a respiração ofegante, o pulso acelerado, as mãos ensopadas tateando na penumbra do quarto em busca do aconchego da mulher com quem casara há trinta anos.
Elsa era uma mulher firme, de humor fino e espírito elevado, sempre disposta a ajudar os outros. O marido a quem amava contou rapidamente com seu abraço e carinhos. Filha de judeus alemães, casara-se com Adamastor quando ele se tornou detetive. Os longos plantões fora de casa, as diligências e investigações, o constante risco, a tudo enfrentou como uma esposa de fibra, sempre o apoiando. Contudo atravessavam uma pequena crise conjugal. Elsa ausentava-se de casa, cada vez mais envolvida em “compromissos” que Adamastor tinha dificuldade de interpretar de outra forma que não fosse a expressão de adultério.
“Sonhei de novo com aquilo, Elsa…”, disse, entre soluços.
“Deixa disso, querido, é só pesadelo… tenta dormir de novo”. Elsa tinha certeza de que o conteúdo do pesadelo era igual à ladainha que atormentava o marido em estado de vigília. Ela realmente tinha um caso, reencontrara um antigo admirador, agora separado e disponível, com quem Elsa havia tido um breve affair durante uma das crises do casal quando ainda estavam no décimo segundo aniversário. Eles se encontravam todos os dias, por uma ou duas horas, e sempre em horários que Adamastor não tivesse como checar. Contudo, ele agora colocara um jovem agente para que seguisse sua esposa; alguém que Elsa não fosse capaz de reconhecer. Alguém novo na DP.
Adamastor tentou em vão dormir de novo. Remoeu o resto da madrugada os conteúdos angustiantes do pesadelo e os fortes indícios da traição da esposa. Levantou às seis, como fazia sempre, foi tomar banho e café antes que a esposa despertasse. Antes de sair olhou para ela espalhada na cama, as pernas e o dorso desnudos, aquele corpo que há trinta anos o encantara e que agora, tinha certeza, apesar dos anos, ainda o atraía; e se ela o traía com outro, era algo demais para ele. Estava convencido da infidelidade de Elsa e foi com essa certeza que instruiu o jovem agente (Marques era seu “nome de guerra”) que, embora tentasse dissuadir o delegado da constrangedora diligência, acabou por acatar a ordem superior.
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