14. No dia que te pedi perdão

à M. T. (in memoriam)

No jasmineiro que a infância cultivou, uma praga roeu as raízes até que secassem as delicadas pétalas e só restassem galhos retorcidos e espinhos, além do perfume de uma saudade sem fim. Não havia jardinagem que o salvasse, onde só a tiririca do descaso prosperava – ao invés da fragrância doce que nos fazia sonhar, restava um gosto acre de pesadelos sem conta.

Com o tempo, a antiga alameda florida cedeu lugar ao maior espinheiro jamais visto, bem ali, onde nenhum passo manteve visível a trilha pisada que antes dava acesso ao coração.

A memória foi obscurecida pelo ressentimento. Este, criou raízes profundas que transformaram em distância o que antes era abraço. O carinho, impedido de voar, petrificado e enegrecido pela fuligem do orgulho, virou estátua oculta na mata fechada, monumento ao olvido e à descrença. Da pira onde outrora arderam entusiasmos e gargalhadas de alegrias sinceras, agora crepitavam lentos multiplicados dissabores.

Então, um anjo caído e extraviado, desses que remendam almas aflitas pela separação, resolveu desbastar com o terçado da ousadia o matagal da ignomínia, de modo a permitir que uma nesga, um feixe, um facho da divina luz do Espírito Santo, adentrar o emaranhado de dores e empáfias e ali, no miolo da mata, sobre o cocuruto da estátua, plantasse uma semente.

De um sacerdote ouvi que se um coração não se abre, deve-se deixar do lado de fora, sobre sua pele, como carta cujo destinatário recusa-se a abrir e receber, para que um dia qualquer, quando menos se espera, a esperança retorna na forma de um perdão.

No dia em que te pedi perdão, meu coração disparou vivo novamente, ribombando de alegria e júbilo, certo de ter desperdiçado tanto tempo e firme no propósito de não mais permitir que o afastamento se estabeleça novamente. Nesse dia, as almas daqueles que não puderam ver essa alegria expressar-se em carne e osso, soprarão através de uma leve brisa sobre as lágrimas do reencontro.

As trilhas se refarão aos poucos e a mata será repovoada, com toda sorte de sons, seres e cheiros. Quando virem dois irmãos abraçados que se reconciliam, saibam que nasceu um jasmineiro!


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