20. O centésimo conto

à R. A. F.

Mulá Nasrudin havia se declarado a uma amiga a quem muito amava, mas secretamente. Ao fazê-lo, ela delicadamente declinou reiterando sua profunda amizade, porém totalmente destituída de desejo.

Passaram-se dez anos e Nasrudin seguia cultivando seu amor secretamente quando, afinal, surgiu a chance de um reencontro. Sentindo-se menos atraente do que antes, mais velho, gordo e grisalho, convidou-a uma tarde para um chá.

Ela continuava linda. “Ainda mais linda do que antes” – disse-lhe Nasrudin – e sentiu seu amor transbordar ainda mais intensa e profundamente por ela. Enquanto bebiam chá, a amiga contou-lhe que havia se separado, falou de seus pretendentes e do quanto desejava o aconchego de um lar e de um amor. Percebendo que não havia desejo algum por ele nos olhos de sua amada, Nasrudin disse:

– Mais valem dois pássaros voando livres do que um na mão. O amor deve ser expressão da mais profunda liberdade.
E assim, mais uma vez, Nasrudin declarou o seu amor.


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