21. Marzipã

Dia desses me sentia solzinho, sem ninguém pra brilhar comigo; então explodi seiscentas e treze ogivas das minhas nuas gengivas e esbocei um sorrir fragmentado mas sincero. A boca, um parlamento fechado por ato institucional, bombardeado num cenário de Stalingrado da Segunda Guerra. Ruínas, devastação, desolamento, infecções, a peste negra grassando em cacos esquecidos no palato do que antes foram dentes. Tornara em estátua de ditador deposto, evoluído de um velociraptor até a condição de um frango deformado pela radiação em Nagasaki. Sem cera que pudesse escorrer de minhas escamas/penas, desfraldadas como alas de águia de alegoria, feita de paetês, isopor e purpurina, estolei feito um Ícaro embriagado na direção do solo, embicado e retorcido como tromba d’água.

Não sabia onde estacionar minha neurose, e me sentia perdido, aturdido. O flanelinha veio ajudar, indicou “Vai, vai”, depois com olhar clínico, dando a volta para ver o tamanho e a circunferência do meu imbróglio, prosseguiu “Vem, vem” e apesar de não tocar nas balizas, não subir no meio fio nem atropelar quem quer que fosse, a neurose não cabia na vaga, o flanelinha se desculpou e disse que eu procurasse outra freguesia, mas me cobrou do mesmo jeito.

Depois veio um mendigo, um morador de rua, uma mulher com uma requisição de remédio pedindo caridade para a erisipela da mãe, outro veio me comover com a válvula que tinha de comprar para o crânio hidrocefálico da filha. A todos sorri me desculpando, ajudando até, quando possível, com cédulas feitas de minhas lacrimogêneas pálpebras e, talvez minha tolerância viesse do fato de que, se eu podia estacionar aquele trambolho em plena luz do dia e à vista de todos, então, eu devia ser alguém. Mas não era. Era solzinho no mundo. Fora expulso de uma galáxia, numa estrepulia cosmicômica como as do Calvino; e até os miseráveis sentiram pena do meu desvelo.

O cão sarnento que se coçava trôpego, confundiu minha perna com um poste e ergueu a dele, brindando minha batata com um jato quente de seu íntimo. Os gatos consumidos pelas pulgas seguiam mijando aos pares, lânguidos sobre minhas memórias. Fotos e negativos, desenhos, escritos, memória em celulose ou celulóide arderam meses sob o ácido do blend das ureias. A tudo suportei resignado, mastigando o meu vazio como quem rumina um pecado que não sabe onde cuspir.

Contornei a praça, enquanto os mais abastados tentavam me tirar do asfalto em direção ao meio-fio. Os pobres ficaram penalizados. Encontrei um restaurante barato com valete na porta, entreguei a chave e fingi pedir uma mesa. Perguntei onde era o toalete e quando tive a chance, escapuli. Virei pedestre da minha angústia, agora andarilha, peripatética.

Com o que economizar de combustível para levar esse delírio estruturado do bairro da infância até o cemitério ‒ para onde voltarei e que fica em frente à rua onde cheguei nascituro ‒ construirei um castelo. De cartas, de açúcar, marzipã, poliestireno ou outra matéria leve que sustente o peso infinito arquivado das culpas em secattas.

Enquanto a obra infinita não se conclui, ou enquanto não defenestro a ilusão de que um dia se erguerá, salpico no branco essas letrinhas, qual sopa analfabeta inchando seus glútens, de onde pesquei com a colher torta das prestidigitações o nome (im)próprio com que gravaram ‒ em óleo e água na pia marmórea sobre minha testa estrábica e suarenta ‒ os meus padrinhos. Até hoje não sei onde foi parar o nome do pai que escorreu e uma dona dolorida passou um pano de chão encardido enquanto o padre bendizia em nome do pai, do filho e-do-espírito-santo-amém. Tem mistérios que escorrem, pingam, infiltram e fazem gestalt com forma de santa e uma legião de créus peregrinam para vir beijar uma parede mofada e insalubre. Nasceu aí minha sinusite ‒ que me faz chorar sem a lembrança (flecha apontando certeira) da dor.

Paco Rakonti


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