Amanhece. Você abre agora um olho e em seguida o outro, franze as sobrancelhas evitando a luz que lhe atravessa as pálpebras e te desperta. A luz tira você do estado de sonho.
Ou pesadelo. A extrema-direita com seu discurso de ódio e negacionismo ascende em todo o mundo enquanto o meio-ambiente colapsa e nossa humanidade nunca se viu tão ameaçada. Uma terceira guerra que se amar como a velha estratégia colonial do imperialismo. Pesadelo que te deixa um gosto acre na boca, um hálito de engulho que eructa, como se o corpo ao despertar reencenasse a miséria do planeta e de todos os corpos.
O desalento toma conta e a falta de esperança insiste em lutar ainda que sem forças; você percebe que ao respirar fundo suas vias superiores se abrem – o desvio de septo é na alma – e a lembrança de um sonho, adocicado e morno, como uma pequena esperança entre os grilos, como a erva e sua flor se esgueira por uma rachadura no concreto ou no asfalto.
Um sonho que ainda está aqui, vivo e fresco na memória desta manhã onde o sol só não é mais forte por causa da chuva fina, quase uma garoa que umedece o dia. Dia de trabalho ou descanso, você se pergunta. Perde a noção do tempo por alguns instantes e por isso quer reter ao máximo esse resíduo. Sonha com ele ou ela. Gente ou bicho. Aqui ou lá. Escapa de você o sonho, seu enredo, como vai escapando este estado de torpor, preguiça, momento lânguido de despertar num dia que não se sabe qual.
Teu corpo custa a despertar, te espreguiças, esticas o quanto pode as pernas e braços em busca da descarga de tensões acumuladas durante o sonho que já não sabes. Os pés procuram os chinelos; as mãos, os óculos. Antes de colocá-los, esfregas os olhos e retiras as remelas da noite. Segues arrastando os chinelos e tua preguiça. Pia, torneira, água fria. Pasta, escova, gosto de menta.
E então o café, que preparas quase sem olhar, tentando respirar fundo o ar úmido da manhã que ainda te acalenta. Uma fatia de pão na torradeira vai aos poucos se tornando morena; sobre ela espalhas uma camada de mel, que a penetra e umedece. O ruído da cafeteira indica que o café está pronto. Primeiro respiras fundo seu perfume, depois te serves, mordes a torrada e engoles uma generosa porção de tudo isso: café, pão e mel. Engoles a manhã onde despertas, assim como engoles o sonho que ainda buscas lembrar nesta manhã.
Sonhastes com ele ou ela. Agora mesmo sonho que o sonho que esquecestes está presente. Que os fantasmas se escondem como duendes por trás e nos desvãos do estado de vigília. Mais uma mordida e mais um gole enquanto teces estas considerações. O doce do mel contrasta com teu café straight up que costumas sorver todas as manhãs. O sonho tinha a ver com a tua morte, ou de alguém, gente ou bicho, ele ou ela. O sonho ainda tem a ver. Sentes um gosto de morte misturado ao café e ao mel. O pão da vida que mastigado degrada-se como tua carne, pensas. O sonho está agora pulsando em tuas retinas. Fechas os olhos.
O escuro, primeiro, vem com explosões de brancos como miríades de galáxias em formação. Cada olhar humano reproduz o primeiro big bang da criação. Tua mão procura um maço de cigarros que sempre guardas na gaveta da cozinha. Não queres deixar escapar este pensamento. A fumaça do cigarro te fará pensar melhor, pensas. Ao retirar do maço, percebes que ainda dás as mesmas duas batidinhas do filtro contra a caixa de fósforos – gesto que mimetizastes de um tio que achavas elegante – e ao acender na boca do fogão, sorve a primeira baforada como se fosse a primeira. Ou a última.
Uma tontura e tua visão turva até quase escurecer toda a impressão luminosa daquela manhã. Titubeias, teu corpo balança como alguém que tenha sido baleado. Uma dor apertada no peito, uma fisgada, quase uma câimbra percorre teu braço esquerdo, que te faz largar o cigarro no chão. Os chinelos se arrastam em uns poucos passos, quase em câmara lenta, teu corpanzil desaba sobre a louça fria do chão da cozinha, encardida como teus dentes e pijamas. Pão e cigarros. Café e sonho. Mel e o fel que te vem como um último engulho.
Sonhas com ele ou ela. Talvez seja consigo mesmo esse sonho de morte. E uma vez que a morte te alcance, não sabes mais se sonhas que ainda vives ou se vives congelado a este breakfast para sempre limbo.
Paco Rakonti
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