Uma pedrada que levei na têmpora direita quando passava por um terreno baldio, onde meninos de atiradeira tentavam acertar latas vazias, deixou marca – fora a fibrose que durou anos e a dor de cabeça que durou uma semana. Certas palavras, quando proferidas repetidamente, deixam ranhuras indeléveis na alma. Eu tinha onze, talvez menos, e passeava na Rua das Palmeiras, em Botafogo, vindo de uma aula de reforço de matemática que havia no bairro. Não houve intenção dos meninos, não atentaram por mal contra minha têmpora. Sempre que passo por terrenos baldios, meu olho se dirige involuntariamente em busca dos mesmos meninos. Nossos cacoetes mais renitentes revelam essa coreografia que é a expressão de uma memória neurótica, funda, do melhor ou pior que vivemos. Das amizades ficaram as melhores marcas, aquelas que sobrevivem como memória do melhor – mesmo se os amigos são escassos na presença ou importância que tentam imprimir em nossas vidas. Alguns passarão sempre a pedir, requisitar; outros serão doadores incondicionais, sempre amparando, mesmo quando não estamos a cair, apenas por lembrar e sentir falta. A
atiradeira do tempo vem mirando suas pedras desde sempre e não resisto em dizer que ora são flechas de cupido, ora são bordunas, ora pedras, ora joias. Tivesse guardado todas as pedras que me foram atiradas e já teria como erguer um muro – preferi calçar o caminho. Dia desses li uma frase ótima: “Amizade é quando você se esquece de você e se empresta ao outro”. Tem dias que a gente tem vontade de ir lá e pedir a gente de volta.
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