03. Textos-terona


andei pensando ultimamente,
enquanto ouço os passos mancos
do meio século que se aproxima,
que a melhor poesia que já vivi
foi há trinta e cinco anos,
quando nela cria.

A poiesis se esvai com a massa muscular,
os hormônios, os dentes e a linha.
Se o espírito da coisa já não me habita,
é por não mais crer.

regurgitei dia desses um punhado de estrelas
que engoli numa noite quente em julho de setenta e dois
quando transpirava sonhos belos
com legenda em criptomaico;

o barulho na calçada que fizeram
não despertou qualquer interesse
dos que, cegos de mim, passavam

um moleque acorreu pensando serem moedas
mas desprezou em seguida
quando as reconheceu:

”Não sou astronauta
nem quero ser poeta!”

o moleque ouviu a sirene da polícia
e correu a se esconder dentro de mim;

agora o moleque em mim é puro medo
– de descobrirem que ele jamais transpirou nada
além de pesadelos.

Pesa, dele,
toda carga tributária
do descaso infinito

– avalanche veio
e assoreou de gordura ruim
minha veia poética.

Ricardo Paes
01/03/2011


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