É preciso prestar muita atenção nos sinais – ininterruptos, diga-se – que transformam as coisas banais do cotidiano em experiência numinosa. O sagrado, o mágico, a paz profunda e cheia de sentido das epifanias e metanoias, estão em toda parte e em cada ínfimo fragmento da realidade, à espera tão somente da nossa intensidade de atenção.
Um homem muito velho que caminhava devagar debaixo de seus trapos, sentou-se ao lado de um jovem numa beira de estrada qualquer, que desferiu-lhe: “Que diabo roeu suas unhas, velho?” – e o velho respondeu: “Os dentes que já não tenho”. E o jovem prosseguiu: “E os dentes? Que diabo os levou?”. E o velho, sorrindo suas gengivas disse: “As unhas da ansiedade que obrigou meus dentes a roerem”.
O diabo da ansiedade é o que nos consome, entropiza, degrada e finda. Na parede de um corredor imaginário, no INCA onde acompanhei minha mãe com seu hepatocarcinoma, meu humor escatológico escreveu: “Quem espera, sempre há o câncer” – ela sorriu e disse “Só você mesmo!” e tornou com seu senso de humor admirável aquelas horas de angústia numa tarde deliciosa, delicadamente aquecida por um sol tépido e acolhedor. A cruz vermelha que nomeia a praça, que ostentam as ambulâncias, era como a de Malta nas caravelas dos descobrimentos. O continente gigante da escuta selvagem que tornar nossa pátria.
Escutar imensamente, aprender afinal a sorrir quando o senho franze, de nada reclamar que não sejam as intragáveis injustiças do sistema, festejar a beleza que uma trajetória de vida pode deixar como legado, para sempre no coração; intacto amor semeado e deixado brotar para sempre – esta, a suprema lição, a tirar em todas as idas e voltas, a novidade eterna por trás de todas as mesmas histórias.
Leave a Reply