11. Kamala e o Buda

¡Despierta. paloma!
El alba despeja
campanas de sombra. (…)
Y esto es un cuchillo,(…)
Y apenas cabe en la mano.
pero que penetra frío
por las carnes asombradas
y allí se para, en el sitio
donde tiembla enmarañada
la oscura raíz del grito.

(Bodas de Sangre. Garcia Lorca, 1933)

No lusco fusco do amanhecer é que despertam os grandes amores. Como a noite que adormece, rósea, nos braços do dia que desperta; Hórus hirto que ressurge da batalha contra um Seth que desfalece exausto de estrelas; como o sangue e o leite do leiteiro que Drummond imortaliza em seu poema sobre o anônimo
mensageiro; assim também despertam ou adormecem para sempre o casal cuja forma, desfeita com os primeiros raios da manhã e, embora tenha acordado aos prantos silente, emerso de um pesadelo de tirar o fôlego, resolvi chamá-lo a cortesã Kamala e o Buda na senda de seu aprendizado.

O corpo de desejos, materializado pela paixão das formas, crepita sem luz ou chamas, como arde a múmia silenciosamente desfazendo-se na lenta consumação de cinco mil anos; se não lhe roem as traças, pois o salitre que a embalsama é onipresente e a vida não resiste a tanto sal, um fogo fátuo ilumina-lhe uma última vez a forma humana, num lampejo nesta hora rosa da quase manhã. Os amantes tentam enlaçar-se no pó em que se tornaram os abraços. Por um átimo é pela impossibilidade do abraço, do beijo, do enlace carnal que são vertidas as lágrimas.

Os corpos de ambos divisavam-se um ao outro nos corredores escuros da tumba. Podia ser um apartamento, a treva furtiva de amores roubados num Taj-Mahal imaginário, um antro de seres das trevas, apenas a penumbra ou a onipresente luz vermelha de um “bas-fond” de profissionais do sexo; mas no sonho, assemelharam-se à matéria informe das memórias reconstruídas pelo recalque. Havia desejo e mútua admiração, resistia uma paixão de outrora arrestada no eco oco do fogo domesticado pelo que é maduro: ela, que fora linda nos vestidos que moldaram suas formas atraentes, emolduraram em seda e fios dourados a graça do corpo jovem e ardente; ele, jovem em busca de sua alma, alma em busca do que é eterno e imutável por trás das formas que adoecem e morrem, do que é belo mas fenece, que tentara a mortificação depois de toda uma vida de luxos e prazeres sem dor. Ela, cortesã; ele, cortejo – um caminhar pelo mundo em busca do fim, do sentido, da consumação de quem sabe que ao término da estrada só há o pó. Ela, artífice nas artes do gozo do corpo; ele, aprendiz e mestre a esculpir o templo da iluminação da
alma. Ambos igualmente pó.

Os corpos de ambos se entreolharam na escuridão: ainda ardia alhures o desejo transformado. Um último arrepio percorreu-lhes as enervações que já não haviam e, ao leve toque que trocaram, as formas arderam como o vento sudoeste desfaz no amanhecer as dunas erguidas com as brisas da noite e vergadas pelo sereno. Seus rostos irreconhecíveis; impossível distinguir qual sentimento havia no abraço de duna que trocavam no desfazimento. Cada grão do que fora seus corpos dançava no vórtice que o vento da manhã coreografava.

No sonho, pareciam dois danados. As lágrimas corriam de seus olhos, no momento de acordar – naquele momento onde um pé ainda sente vívidos a areia e o mar do inconsciente fantasmatizado, enquanto o outro está na cama, sente o peso da carne, a dormência da má circulação dos fluidos, e espreguiça um a um os dedos como quem se prepara para o recaminho. Nesta cena monumental – como aquela em Dersu Uzala, onde pode-se ver em cinemascope a noite adornada de um lado com a lua pérola marmórea e de outro o dia coroado com o sol jóia dourada – Kamala e Buda se entreolham sem olhos (em Gaza, com Sansão, citando a epígrafe de Huxley) neste ínfimo instante de permissão, como Isabeau e Navarre, vítimas do feitiço do Bispo de Áquila, condenados a apenas um breve instante no amanhecer – ele amaldiçoado a ser lobo durante a noite e ela, de dia, condenada a ser falcão. O rato, mensageiro qual o leiteiro, faz de crepúsculo e proxeneta: engendra o encontro. O rato é aquilo a clivar o plano das pulsões, eructação imagética do sonho, com o plano do recalque, continente. Mas as lágrimas não são de dor, pelo apego a um amor da carne, lascivo e servil às paixões primitivas. Ao contrário, são uma doce despedida. A água doce exsudada da múmia, embalsamada no êxtase saudoso da fruta que serviu ao milagre da semente: a árvore Bodhi, germem-olho que nunca se fecha, Eu Superior desperto afinal no Eterno, corpo desfeito que sorri. Buda e Kamala sorriem um para o outro mais uma vez.

A cena é doce, embora sejam as lágrimas, de sal, como as lágrimas de Portugal. A saudade eterna é sempre promessa nas coroas fúnebres, como o é de pureza e amor eternos a coroa branca das noivas matutinas. A pomba loura e o urubu feio.

Os pés de um casal se tocaram à noite sob as cobertas, um membro hirto e um ninho úmido de carne exsudaram seus feromônios na falta de encontro que sentiam; os sonhos para sempre separados se abraçaram uma vez mais num lampejo orgástico para além da atração dos corpos; não há fidelidade neste amor sem anatomia, onde todos desejos de objeto arquetípicos exumados se eximem de toda e qualquer parte. Anseiam por Todo. Não importa se o Sutra ao deus Kama é meditação pura, se o Tantra desperta desde o muladhara qual naja encantada pela flauta e que se ergue kundalini rumo ao chackra de mil pétalas. Importa que o casal solar-lunar dance com os pés descalços da alma, a zoroastriana coreografia – antes pétalas perfumadas nos óleos dos abraços no ninho de amor e que ora jaz revoluta na espiral scendente de folhas secas de Polyscias guilfoylei que ardem na fogueira e cujas centelhas quase cinzas ascendem buscando seu devir de estrelas.

Ricardo Paes
20 de maio de 2014


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