16. Voor Mônica

I

Ó lânguida Holanda
que respiras lenta
teus invernos sem azuis
de bruma cinzenta
como num blues

  • tenho ciúmes:

pois são teus os ventos
que acariciam lentos
entre pálidos lumes
a penugem

do pássaro que flauta
da cor da ferrugem
nesta noite alta.

II

Ó terra dos diques
com teus piratas
não quero que fiques
servindo de ninho
em tuas águas-espelhos
com que refratas

os cabelos vermelhos
do meu passarinho:
ela pássaro ruivo
assistindo tua aula

eu lobo sozinho
que uivo
na jaula.

III

Ó terra dos moinhos
de quixotescos caminhos
que moem sonolentos o trigo
dos meus pensamentos
adivinhos

que sequer suspeitam
que teus muitos ventos
violentos nos espreitam
e transformam o grão

de um encontro antigo
no pão de um amor amigo.

IV

Ó terra de Van Gogh
de Escher e Rembrandt
que toda saudade afogue
e que nunca a torne vã

  • pelo contrário a fecunde
    mesmo que o mar inunde

mesmo que a dor aperte
o pássaro de Utrecht
possa um dia voltar
e virá num assobio

fugindo do ninho frio
pro quente Rio tornar
de onde antes era´mar


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