I
Ó lânguida Holanda
que respiras lenta
teus invernos sem azuis
de bruma cinzenta
como num blues
- tenho ciúmes:
pois são teus os ventos
que acariciam lentos
entre pálidos lumes
a penugem
do pássaro que flauta
da cor da ferrugem
nesta noite alta.
II
Ó terra dos diques
com teus piratas
não quero que fiques
servindo de ninho
em tuas águas-espelhos
com que refratas
os cabelos vermelhos
do meu passarinho:
ela pássaro ruivo
assistindo tua aula
eu lobo sozinho
que uivo
na jaula.
III
Ó terra dos moinhos
de quixotescos caminhos
que moem sonolentos o trigo
dos meus pensamentos
adivinhos
que sequer suspeitam
que teus muitos ventos
violentos nos espreitam
e transformam o grão
de um encontro antigo
no pão de um amor amigo.
IV
Ó terra de Van Gogh
de Escher e Rembrandt
que toda saudade afogue
e que nunca a torne vã
- pelo contrário a fecunde
mesmo que o mar inunde
mesmo que a dor aperte
o pássaro de Utrecht
possa um dia voltar
e virá num assobio
fugindo do ninho frio
pro quente Rio tornar
de onde antes era´mar
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