23. Obituário II

se eu tivesse, mas não tive,
o zelo, a cura, o desplante

de trabalhar melhor o poema
como quem bem soubesse

e de escrever vivesse
poema melhor que esse:

urdir, tecer, cerzir, coser
suas métricas, sua assimetria

como um ikebana, como banana
presa com silvertape no leilão

como happening, instalação
poema concreto, papo reto

sobre a contravenção
contra a convenção;

se eu tivesse, mas não tive,
o talento, a disciplina, a desfaçatez

de me auto intitular poeta
como sonhei certa vez

esteta, obstetra de bom tom
mas sempre de um poema bom;

brandir a lâmina da escrita que
dilacera, opera, sutura, tempera

no peito de quem lesse
como se bom poema fosse

eu escreveria, escreveria
e de escrever eu morreria

nessa lida vã inevitável
que corre riscos no papel

como desenhos, psico
grafias natimortas, tortas

garatujas, transgênicas,
como se fosse necessário

se eu vivesse de poesia
ao invés desse óbito diário.

Paco Rakonti
27/04/2025


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