se eu tivesse, mas não tive,
o zelo, a cura, o desplante
de trabalhar melhor o poema
como quem bem soubesse
e de escrever vivesse
poema melhor que esse:
urdir, tecer, cerzir, coser
suas métricas, sua assimetria
como um ikebana, como banana
presa com silvertape no leilão
como happening, instalação
poema concreto, papo reto
sobre a contravenção
contra a convenção;
se eu tivesse, mas não tive,
o talento, a disciplina, a desfaçatez
de me auto intitular poeta
como sonhei certa vez
esteta, obstetra de bom tom
mas sempre de um poema bom;
brandir a lâmina da escrita que
dilacera, opera, sutura, tempera
no peito de quem lesse
como se bom poema fosse
eu escreveria, escreveria
e de escrever eu morreria
nessa lida vã inevitável
que corre riscos no papel
como desenhos, psico
grafias natimortas, tortas
garatujas, transgênicas,
como se fosse necessário
se eu vivesse de poesia
ao invés desse óbito diário.
Paco Rakonti
27/04/2025
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