24. Obituário I

É com pesar que comunico
o triste falecimento
de um amor outrora rico
e de profundo envolvimento

Acometeu-lhe certo mal
de difícil tratamento:
o tempo lhe foi rival
e não lhe deu atendimento

Por descuido ou por folia
este quadro de tão grave
foi se transformar um dia
em aprisionada ave

Que voar já não sabia
sequer viver na gaiola
presa de tal agonia
não ficou boa da bola

Nos últimos anos sofreu
uma gradual piora
e tanto que entristeceu
que perdeu de vista a hora

De voltar atrás no tédio
e buscar uma saída
viu-se por fim sem remédio
e despediu-se da vida

Deixou um só testamento
ante a iminente partida:
que no seu sepultamento
não houvesse despedida

Pois acredita que agora
Consumada a dissolução
É a inexorável hora
da final separação

Não quer nem choro nem vela
nem uma rosa amarela
só pede que encerrem o assunto
e esqueçam logo o defunto.

Paco Rakonti


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