28. Demo

I

Iniciado fostes nos mistérios
com sombrios rituais em cemitérios
dos quais tu jamais te esquecerás

e fizestes os votos secretos e finais
e em meio aos cerimoniais
tu vistes em teu Mestre um verdugo
do qual jamais serás livre do jugo

e lutarás por toda a eternidade
por um minuto só de claridade

das trevas gritarás até o pó
mas até o teu resto estará só

II

Fizestes pois o pacto derradeiro
para te tornares o único herdeiro
de um Reino cuja treva é um ser total

E quando oferecestes a ele a alma
perdestes em definitivo a calma
selando com sangue um vil contrato
o que tornou-te imundo como um rato

a fuga é inútil e vã, não há sossego
possível neste mundo de breu cego

do Inferno só retornam os vencidos
que no Céu são para sempre esquecidos

III

Ó demo, porque me seduzistes?
Não vês que a Ele
também sou fiel?

Mas o Capeta ri-se de mim,
tanta a tolice
– e faz vibrar o seu riso cruel…

IV

E na espera que a Mãe Divina
surja no Céu
envolta em seu brilhante halo

Me deixo cair sem esperanças
despeço-me das crianças
e desço pelo ralo.

V

Loucura é essa razão que sem descanso
se rasga e despedaça num remanso
na busca de sossego a vida inteira
só encontra paz em plena corredeira.

Paco Rakonti
25/3/1985


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