58. Schütze und Ziel

“O que leva alguém a ficar lendo e escrevendo o tempo todo, e não ir lá pra fora brincar, curtir com os amigos e tal, heim?”, perguntou o irmão Schütze. A pergunta do irmão era provocativa, afinal sabia que o irmão Ziel tinha certa fobia social, se sentia um desajustado, um estrangeiro em sua própria casa e o mundo lá fora era hostil e não o convidava ao jogo e ao prazer.

“A aprender, viajar sem sair de casa…”, respondeu, um pouco sem convicção e com medo do que o irmão lhe jogasse na cara em resposta. “Tu não acha que viajar sem sair de casa é coisa de perdedores? De gente que se esconde pra não enfrentar a vida?”.

Discussões como essa eram recorrentes. Embora o irmão sete mil anos mais velho, aqui e ali, sobretudo quando apresentava o caçula da casa a visitas curiosas, sempre a ele se referisse com um simulacro de orgulho, dissimulando o fato de que aquela mania do irmão de ler e escrever fosse um problema, mas que era melhor apresentar como algo de que a família não devesse se envergonhar.
As respostas do jovem Ziel, sete mil anos mais novo, ficaram guardadas, sem que este as ousasse proferir, caladas como a baioneta que tirara a vida do avô na Segunda Grande Guerra e depois, reencarnado, também na Oitava e na Décima Quinta. Enquanto ruminava as palavras não ditas, abaixava a cabeça e devolvia o olhar agressivo do mais velho com a desolação de não estar sendo compreendido. Mesmo assim, e talvez por algum arrependimento, o mais velho, tomou o caderno cheio de garatujas do irmão e olhou por um segundo, devolvendo-o com certa rudeza:

“Mas vai lá, conta aí o que tu escreveu. Vou deitar e fechar os olhos, mas estou te ouvindo”. Essa frase era a deixa, a pista como nas vezes anteriores. Ele sabia que o irmão iria dormir em poucos minutos, que para nós eram semanas. Agora ele começaria a ler seus poemas e contos, seus textos estranhos, muitos sem pé nem cabeça, e dali a dois ou três minutos, ou semanas, ouviria o irmão ressonando, a boca levemente entreaberta para indicar que mergulhava em sono profundo. Mais um tempo ele veria os olhos moverem-se rapidamente nas órbitas, indicando que o irmão sonhava. Sua fase REM durava um ano inteiro. Mesmo assim seguiria sem interrupção sua leitura. A leitura dos textos que ninguém prestava atenção realmente. O que ele precisava era de uma escuta, ainda que inconsciente.

Firmou os olhos no papel e leu o primeiro trecho: “Sou um rato branco desajustado. Não faço exercícios na rodinha como os demais e minha dieta não se baseia no mix balanceado de rações que nos oferecem. Perdi há tempos os dentes roedores e, deixando de ser incisivo neste mundo de ratos brancos supremacistas, vejo-me como sem função ou utilidade. E se quer saber como perdi meus incisivos, acho que foi tentando roer as finas grades da gaiola. Consegui retirar boa parte da tinta que as revestia, mas somente daquelas que alcancei em minha enorme limitação de pequeníssimo roedor. Tinha esperança de que algumas delas fossem feitas de um metal menos resistente, mas todas eram de um aço de primeira e meus dentes se consumiram e disso quase não dei conta; quando reparei, era tarde demais. Quando vi, havia contaminado as raízes de ambas as presas maiores e centrais – os molares laterais foram enfraquecendo e agora mal consigo mastigar as rações mais macias. Toda a boca doi, inflamada. Nos comunicamos por ultrassons, de modo que quando expressamos dores lancinantes os humanos não nos ouvem. De modo que os cuidadores não percebem minha real condição.

Na gaiola colocaram uma fêmea para procriação, mas na realidade não consegui emprenhar a pobrezinha. Talvez, por deficiência de nutrientes, minha produção de esperma seja baixa, sei lá eu. Sou um rato. Um rato branco de laboratório. Talvez até seja um refugiado. Mas esse é meu nome comum. O científico é Rattus Norvegicus Sou do filo Chordata, Subfilo Vertebrata, da Classe Mammalia, Ordem Rodentia. Sou da Família dos Muridae, subfamília Murinae, Gênero Rattus, da espécie Norvegicus. Por isso Rattus Norvegicus. Mas pode me chamar só de Rato. E ainda por cima albino e desajustado.”

E esse era o momento em que ele perguntaria ao irmão “E aí? O que achou?”. Mas Schütze dormira ainda nas primeiras linhas. E ele sabia disso. Sabia também o que o irmão acharia daquela bobagem, ele com aquela mania de estudar os bichos, de devorar livros e livros sobre a anatomia de insetos e animais de todos os portes. Ziel era um ser estranho, tão desajustado e medroso como o rato – e, claro, usava a literatura para costurar aquilo tudo, como seu pai alfaiate o faria, embora também não apreciasse nem a literatura nem as manias do caçula.
Fechou o caderno, imaginou um diálogo com o irmão e apenas respondeu, como se o irmão o tivesse elogiado: “Que bom que você gostou”. Colocou o caderno sob a cama de baixo da bicama “marquesa” onde dormiam, afastou para longe do nariz as botinas fétidas do irmão que acabara de chegar do estágio no estaleiro, apagou a luz e tentou dormir. Era difícil, com tantos sons no vai e vem das pessoas subindo e descendo da favela. Costumava pensar que nunca vira a favela realmente silenciosa, pois sempre havia um trabalhador chegando de longe no início da madrugada e sempre alguém acordava mais cedo para ir trabalhar, de modo que não havia uma hora do dia em que a rua silenciasse. E, claro, ele com seus ouvidos sensíveis de rato, divagava a cada som, imaginava situações e cenas, pensava nas histórias daquele povo que ia e vinha o tempo todo, contrastando com a necessidade de sono das casas, onde havia gente que estudava e trabalhava em algum lugar perto ou longe dali. Essa era uma das coisas que distinguiam as pessoas do morro e as do asfalto
.…
O rato Ziel um dia raspou a cabeça, de tanto que assistiu ao seriado Kung Fu e resolveu chamar o amigo, uma criatura que durante o primeiro milênio de amizade parecia um seu igual, morador na gaiola vizinha (na verdade no prédio gêmeo ao seu) com aquele assobio ultrassônico combinado desde a infância. Quando este o ouviu e o avistou por trás das suas próprias grades, gargalhou em silêncio com os olhos arregalados como quem diz “Maluco, cara, por que você fez isso?”. Rapidamente ele subiu até a casa do amigo – naquele tempo não haviam trancas eletrônicas, os muros eram baixos, embora a favela fosse palco de confrontos frequentes entre traficantes e a polícia, a violência ou assaltos contra os moradores das cercanias era reduzida quase a zero, pois ninguém queria problemas com os “do asfalto” mais próximos do morro. Os dois riram e conversaram bastante, o careca convencendo o cabeludo a tornar-se um rato shaolin como ele. O cabeludo ora topava, ora amarelava. Ziel chegara a enrolar o amigo num lençol como nas barbearias, a tesoura no alto da cabeça, esperando pelo OK final. Depois de muitos “Vai!” e “Não vai!”, o careca acabou por abrir uma clareira na vasta cabeleira do amigo e, dali até a raspagem total, foi um pulo. A mãe do rato recém cooptado ao templo Shaolin da Marechal (como apelidaram a rua) gritou da gaiola vizinha, para que viesse almoçar:
“Donner!”, disse Dona Kleine Therese com seu tom peculiarmente doce. Ele apareceu na janela, já careca, e a mãe arregalou os olhos gritando para o marido: “Sergei, vem ver uma coisa!”. O pai apareceu por trás das grades e resmungou: “Isso é coisa daquele maluco do Ziel… parece que tem titica na cabeça! É um kopfköt esse piroca!”.
Passaram-se os milênios, os dois amigos RATOS cresceram, bem como seus cabelos, os pais faleceram – as mães seguem, velhinhas, caminhando mais lentas pelo bairro – e ainda se encontram na Marechal ou na Barão, os filhos cinquentões, e lembram dessas e de outras histórias. O tempo também passa para os ratos. Em alemão é maus. Mas não confunda. Ziel, segue escrevendo, sonhando ler suas histórias para o amigo Donner. Schütze afastou-se de todos. Os três já atravessaram a metade da era, sendo que apenas Donner segue agitado, ligeiro, falando depressa e sempre sem tempo para conversar. Ziel lamenta que em torno de si não existam círculos concêntricos e centrípetos de amizade na proporção de seu desejo.

Paco Rakonti


Adquira também o livro:
A crônica perdida de Machado de Ricardo Paes (Amazon)

Posted

in

, ,

by

Comments

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *