44. De âncoras e amuletos

O que pode a âncora nessa modernidade pós-humana dos relacionamentos líquidos, nesse contexto movediço e precário onde sequer o fundo do mar oferece o chão e a solidez que antes nortearam as relações de todo tipo? Como atracar nesta anomia?
Embora instável, movediça, as relações monogâmicas envolvem interesses que só o capital pode explicar, que já sabemos urdidas por ainda mais ridículos que à época da contracultura.
Se a felicidade são momentos e estes tão fugazes, a que serve tanta racionalização que justifique a duração, a permanência, o inteiro em detrimento do meio, como se a vida não nos atravessasse com suas metades, parcelas, insuficiências, frustrações, escolhas boas e ruins que a tudo isso em nada afeta, que a nada em tudo afeta? Qual o valor intrínseco em não se usar máscaras – como se se propor à transparência não fosse, em si, um tipo insidioso de moralismo que também mascara, escamoteia?
O velho terno dos hábitos e automatismos pode até esmolambar, ou seja, exprimir nossa impetuosa mendicância, mas, ao mesmo tempo, ajusta-se, macio, o corpo (e quiçá também à alma) e seus maneirismos como nenhum alfaiate seria capaz de tão bem ajustar.
Um bilhete escrito há algumas décadas e deixado à deriva numa garrafa, veio dar na praia do meu desterro, logo a meus pés que raramente me banho de mar.
Fora escrito numa língua esquecida, talvez inventada em criança mas que dizia que de esperanças criamos nossa melhor versão de mundo, e da certeza de que, sendo impermanente a vida, se nos reveste de uma mágica inesgotável quando promete nos tornar o melhor que pudermos ser a cada minuto – consciência em gratidão que somos.

Paco Rakonti


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