Category: Escritura Privada

  • 20. O centésimo conto

    à R. A. F. Mulá Nasrudin havia se declarado a uma amiga a quem muito amava, mas secretamente. Ao fazê-lo, ela delicadamente declinou reiterando sua profunda amizade, porém totalmente destituída de desejo. Passaram-se dez anos e Nasrudin seguia cultivando seu amor secretamente quando, afinal, surgiu a chance de um reencontro. Sentindo-se menos atraente do que…

  • 19. Halley

    Por isso somos quem somosestrelas de um só momentomas cujo brilho ameaçaa ordem do firmamento(Manduka) Não, não tire conclusões apressadas:sou apenas um cometaque passa pelo mundocomo uma vida passae prossigoo meu caminho como a vida prossegue o seu caminho… Dizem as más línguas que por aqui já estiveanunciando catástrofes e mostrando o caminhopara guiar os…

  • 18. Imortal

    um diaolhando sem ajudaum sol que no seu brilhonão me iludao Talmudtalvez mudecomo um tao mudoe, à noite,desse dia triunfantepasso no vestibularpra hierofante e nessa beatitudenesse astralsentindo dor de dentede repenteaprendo de vezque sou imortal.

  • 17. Iara

    1 tu não me deixasnadar em tuasmadeixas nuas teus pêlos sãolíquidas ruase pelos vãos de vosso corpo d´águadissolvo a mágoado coração. 2 serei a forçadessa sereiaformosa moçabeirando areia serei o cantoencanto ao longeser vosso prantoser vosso monge 3 invento ventosde tempestadesois nos conventosa majestade suave mãoteu leve toqueserei a luva imensidãodo mar o choqueserei a…

  • 16. Voor Mônica

    I Ó lânguida Holandaque respiras lentateus invernos sem azuisde bruma cinzentacomo num blues pois são teus os ventosque acariciam lentosentre pálidos lumesa penugem do pássaro que flautada cor da ferrugemnesta noite alta. II Ó terra dos diquescom teus piratasnão quero que fiquesservindo de ninhoem tuas águas-espelhoscom que refratas os cabelos vermelhosdo meu passarinho:ela pássaro ruivoassistindo…

  • 15. O leão e o touro

    O leão com a cabeleiraO touro no pastando o mundo

  • 14. No dia que te pedi perdão

    à M. T. (in memoriam) No jasmineiro que a infância cultivou, uma praga roeu as raízes até que secassem as delicadas pétalas e só restassem galhos retorcidos e espinhos, além do perfume de uma saudade sem fim. Não havia jardinagem que o salvasse, onde só a tiririca do descaso prosperava – ao invés da fragrância…

  • 13. O pesadelo de Adamastor

    “Acorda, Adamastor! Você estava tendo um pesadelo!” Adamastor suava frio, o corpo tremia dos pés à cabeça, a respiração ofegante, o pulso acelerado, as mãos ensopadas tateando na penumbra do quarto em busca do aconchego da mulher com quem casara há trinta anos. Elsa era uma mulher firme, de humor fino e espírito elevado, sempre…

  • 12. Efêmera dança

    que ostra feliz não faz pérolaeu já sabia; que mora na filosofia rimar amor e dor, Caetano já dizia;que a melhor canção se nutre da dor de cotovelo ou da indignaçãoessa crença eu já nutria, mas agora quando se perde um grande amoro maior de todos, o mais intenso, o que resta ao filósofo e…

  • 11. Kamala e o Buda

    ¡Despierta. paloma!El alba despejacampanas de sombra. (…)Y esto es un cuchillo,(…)Y apenas cabe en la mano.pero que penetra fríopor las carnes asombradasy allí se para, en el sitiodonde tiembla enmarañadala oscura raíz del grito.(Bodas de Sangre. Garcia Lorca, 1933) No lusco fusco do amanhecer é que despertam os grandes amores. Como a noite que adormece,…